O Pianismo na cidade de Pelotas 1918-1968, prefácio de Mario Osorio Magalhães

As Misericórdias e os Conservatórios de Música são típicos exemplos de instituições que existem não só há longos anos como em muitas cidades de diversos Estados brasileiros. Essa multiplicidade de reproduções (desde o período colonial e o início do Segundo Reinado, respectivamente) faz com que tais entidades sejam bastante conhecidas da população, digamos, mais civilizada do Brasil.

Justamente, talvez, por isso —porque a referência é quase corriqueira—, o tratamento que têm recebido dos historiadores é, na maioria das vezes, tangencial, paralelo. Como se cada unidade que se houvesse fundado, no espaço, fosse uma cópia, ou imitação, daquelas que lhe antecederam, no tempo. Bastaria, então, conhecer a trajetória de algumas, mais antigas, para chegar à conclusão de que praticamente se percorreu o caminho, desvendou-se o passado de todas as outras, mais recentes…
Isabel Nogueira, neste livro, ajuda a provar que não é nada disso. Mostra que o Conservatório de Música de Pelotas, ao ser criado em 1918, seguiu o modelo dos seus congêneres nacionais, mas destaca sobretudo que ocorreria aqui uma tradução específica e uma seleção particular, fazendo desta instituição oficial, localizada no extremo meridional do País, um exemplo novo e, para dizer o mínimo, interessante.
Por quê? Porque já se desenvolvera em Pelotas, no ano da fundação do Conservatório, um gosto específico pela música —em outras palavras, uma identidade musical própria.
Farei só uma citação, para não repetir os argumentos que a autora utiliza, com tanto brilho e ótimo estilo, nas páginas que se seguem: em 1827, o alemão Carl Seidler observava em seu livro Dez anos no Brasil que, na freguesia de São Francisco de Paula (nome primitivo de Pelotas), “o piano se encontra em todas as boas casas” e “as mulheres quase todas tocam”. Veja bem o leitor: isto foi escrito quase um século antes; sem nenhuma dúvida, trata-se de uma realidade e de um comportamento que, de alguma forma, teriam de influir, necessariamente, sobre os destinos e os rumos do Conservatório, cerca de cem anos mais tarde…
Agora, confesso: o que mais me surpreendeu neste livro foi a circunstância de que Isabel Nogueira não se limitou a recuperar os antecedentes, a fundação e os primeiros 50 anos de história dessa atual unidade da UFPel registrando apenas os seus episódios mais relevantes. Chegou a minúcias, tais como analisar todo o repertório executado, ao longo do tempo, por seus professores e alunos, dentro dos mais diversos cenários que a sensibilidade dos pelotenses, até 1968, chegou a construir, com a saudável intenção de se deliciar auditivamente e se expressar em sons, através de instrumentos (de modo mais específico, neste caso, o piano) e notas musicais.
Creio que, por isso, tem toda a autoridade a afirmação que me fez a autora, numa correspondência que trocamos, recentemente, quando lhe solicitei subsídios de natureza pessoal para escrever este texto. Disse-me assim: “percebi que o repertório tocado pelos alunos da Escola era surpreendentemente mais contemporâneo do que aquele tocado pelos pianistas de fora da cidade”. E não é de pequena monta verificarmos que um desses pianistas foi nada mais nada menos do que Antônio Sá Pereira, que passara 17 anos estudando na Europa, que voltara ao Brasil para ser diretor do Conservatório de Música de Pelotas e que, depois, fixando-se no centro do País, foi ser professor de Camargo Guarnieri e amigo de Mário de Andrade…
Isabel Nogueira começou a estudar piano aos 8 anos de idade, e a freqüentar o Conservatório desde os 12; foi para a Espanha, cursar Doutorado, na Universidade Autônoma de Madri, dez anos depois; para compor sua tese, na volta, escolheu a história dessa Casa, da qual agora é Diretora. Melhor do que ela, ninguém, para nos conduzir através dos seus corredores, das suas salas, do seu auditório. Ninguém melhor do que ela para recolher, das suas paredes, os ecos de um passado glorioso e vibrante —que agora está definitivamente depositado e ressoará, outra vez, sempre que folhearmos as páginas deste belo livro que ela hoje publica.

Mario Osorio Magalhães

Pelotas, outubro de 2003.

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