História Iconográfica, prefácio de Mario Osorio Magalhães

Conservatório. A palavra, em si, já transmite a idéia de preservação, resguardo, patrimônio.

Pensemos em outra: consultório. Com exceção da faxineira, da secretária e do representante de laboratório, quem vai a um consultório com outro objetivo que não seja o de consultar — ou de ser consultado? A um escritório, porém, raramente alguém se dirige hoje em dia com a finalidade específica de escrever.
É. Algumas expressões, às vezes, fogem do seu significado original. Outras vezes, ganham nova representação, inteiramente distinta daquela que tinham na ocasião em que foram criadas. Poucas pessoas (pelo menos é o que espero) utilizam-se atualmente do armário para guardar seu arsenal de armas…
Precisamente por isso são belas, as palavras. Como tudo o que é importante no mundo, elas são mutáveis e difíceis — embora, algumas vezes, só mudem na aparência e só se façam de difíceis. Serão sempre complicadas para mim, que me dedico à tarefa, quase diária, de juntá-las, enfileirá-las, todas as manhãs, na ante-sala aqui de casa (tenho, também, uma biblioteca, mas nunca tive escritório).
Com a autoridade de seu quase um século de existência, é precisamente essa imagem de resguardo artístico que vemos refletir, com mais intensidade, o nosso Conservatório de Música; mas não apenas como estabelecimento destinado a conservar e aperfeiçoar, através do ensino, esta arte entre nós: na condição, mais ampla, de uma das melhores tradições de Pelotas.
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De um modo geral, as entidades escolhem registrar suas datas de aniversário utilizando como referência a primeira ata de fundação. Não foi o caso do Conservatório de Música.
A reunião que formalizou o seu nascimento verificou-se numa noite chuvosa e fria de 4 de junho de 1918, e teve lugar nas dependências da hoje Associação Comercial, então Praça do Comércio, nessa época funcionando em uma sala do suntuoso Clube Comercial. Três semanas depois, no dia 25, e no mesmo local, foram apresentados os estatutos da nova associação.
Convencionaram os seus idealizadores, porém, que o Conservatório teve o seu início em 18 de setembro. Por quê? Porque nessas vésperas de primavera, num terceiro evento, inaugurou-se a entidade em prédio próprio. E me parece que essa data é ainda mais emblemática porque essa reunião, diferentemente das anteriores, não se limitou aos discursos de praxe: dessa vez o ato burocrático, a solenidade formal, encerrou-se calorosamente, artisticamente — com um recital de piano.
O prédio próprio do Conservatório (o mesmo onde hoje está) foi cedido, nesse dia 18 de setembro, pelo governo municipal. Há o registro, num livro específico que conta a história da instituição, de que esse sobrado teria sido construído entre 1880-1881 para servir de residência ao Barão de Correntes, Felisberto Inácio da Cunha. Mas a informação que tenho é de que bem antes, em 1846, quando da primeira visita de dom Pedro II a Pelotas (logo após a Revolução Farroupilha), ficou esse jovem Imperador, de 20 anos de idade, hospedado precisamente nesse palacete, que era propriedade de Domingos de Castro Antiqueira, nosso primeiro barão, conforme decreto assinado em 1829 por dom Pedro I. Logo após a visita do segundo monarca, o anfitrião Antiqueira seria elevado a Visconde de Jaguari. A fonte? O historiador Alberto Cunha, por sinal filho de Felisberto, Barão de Correntes…
Há uma outra indicação: a de que, depois da morte do visconde, o sobrado passou a pertencer a José Inácio da Cunha. Pois José Inácio era pai de Felisberto, que provavelmente haja herdado e, quem sabe, reformado o prédio. Pelo menos parcialmente, parece-me que fica assim esclarecida a questão.
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Os conservatórios de música são típicos exemplos de instituições que existem não só há longos anos como em muitas cidades de diversos estados brasileiros. Essa multiplicidade de reproduções (desde o início do Segundo Reinado) faz com que tais entidades sejam bastante conhecidas da população, digamos, mais civilizada do Brasil.
Justamente, talvez, por isso — porque a referência é quase corriqueira —, o tratamento que têm recebido dos historiadores é, na maioria das vezes, tangencial, paralelo. Como se cada unidade que se houvesse fundado, no espaço, fosse uma cópia, ou imitação, daquelas que lhe antecederam no tempo. Bastaria, então, conhecer a trajetória de algumas, mais antigas, para chegar à conclusão de que praticamente se percorreu o caminho, desvendou-se o passado de todas as outras, mais recentes…
É evidente que o Conservatório de Música de Pelotas, ao ser criado em 1918, seguiu o modelo dos seus congêneres nacionais. Mas não se pode negar que ocorreria aqui uma tradução específica e uma seleção particular, fazendo desta instituição, localizada no extremo meridional do País, um exemplo novo e, para dizer o mínimo, interessante. Por quê? Porque já se desenvolvera em Pelotas, no ano da fundação do Conservatório, um gosto muito especial pela música — em outras palavras, uma identidade musical própria.
Creio que, como indicativo disso, bastaria o exemplo de um único testemunho: em 1827, o alemão Carl Seidler observava em seu livro Dez anos no Brasil que, na freguesia de São Francisco de Paula (nome primitivo de Pelotas, que, portanto, nem vila era ainda), “o piano se encontra em todas as boas casas” e “as mulheres quase todas tocam”. Veja bem o leitor: isto foi escrito quase um século antes; sem nenhuma dúvida, trata-se de uma realidade e de um comportamento que, de alguma forma, teriam que influir, necessariamente, sobre os destinos e os rumos do Conservatório, cerca de cem anos mais tarde…
A professora Isabel Nogueira, coordenadora deste belo livro de imagens, História Iconográfica do Conservatório de Música de Pelotas, publicou há poucos anos uma outra obra, essa sobre a história do piano em Pelotas e, obviamente, no Conservatório de Música. Em correspondência que me dirigiu, a fim de repassar-me subsídios para que eu pudesse, como agora, compor seu prefácio, confessou-me que havia chegado à seguinte conclusão: “percebi que o repertório tocado pelos alunos da Escola era surpreendentemente mais contemporâneo do que aquele tocado pelos pianistas de fora da cidade”.
E não é de pequena monta verificarmos que um desses pianistas forasteiros foi ninguém mais ninguém menos do que Antônio Leal de Sá Pereira, que passara 17 anos estudando na Europa, voltara ao Brasil para ser diretor do Conservatório de Música de Pelotas e depois, fixando-se no centro do País, foi ser professor de Camargo Guarnieri e confidente de Mário de Andrade…
E isso justifica novas conclusões: o Conservatório de Música de Pelotas, na verdade, transmite a impressão — que se reflete vigorosamente nas fotografias deste livro — de preservação, resguardo, patrimônio. Mas também, e inegavelmente, de restauração, de atualidade, de inovação, de renovação, de vanguarda.
Passa a certeza de ser uma entidade que ficou para sempre, mas que seguiu, desde sempre, em direção à frente.
Mario Osorio Magalhães

Pelotas, inverno de 2005.

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