para Silvia (texto de abril de 2009)

enquanto me olhava no espelho, ontem, na casa da minha mãe, sinto que uma mão alisa meus cabelos.

alisa, sente a textura, o comprimento, comenta como está longo, separa em duas partes e cada parte em outras três.

trabalha calmamente, enquanto conversa, as três partes de cabelo, e faz uma trança de cada lado.

segura a trança enquanto procura com o que atá-la, pega da cadeira ao lado uma boneca com cabelo de lã, puxa rapidamente um dos fios e amarra com destreza a trança.

faz o mesmo do outro lado.

percebo sua calma e habilidade maternais enquanto ajeita meus cabelos e observa o resultado de seu trabalho, de forma tão segura como se aquele carinho fosse realmente um presente saído de suas mãos.

me sento perto dela e observo como ela agora começa a arrumar o cabelo das suas duas filhas.

ajeita os fios, separa um pouco de cada lado, torce e prende com presilhas coloridas.

convence as pequenas a ficarem quietas enquanto as arruma, dizendo como estão ficando bonitas, e coloca presilhas cor-de-rosa na pequena, e verde e branca na maior.

seu olhar se enche de ternura enquanto observa as filhas se admirando no espelho da sala.

e, observando-as, fiquei feliz que ela me colocou entre suas meninas, me entrelaçou os cabelos com carinho e cuidado num gesto feito pela primeira vez mas que teve gosto de toda a vida.

passei todo o dia de tranças, até a hora de dormir.

ao longo do dia tive que refaze-las, porque se desmanchavam; mas era a ternura do gesto dela que eu queria conservar.

feliz de perceber que minha irmã, agora, tem mãos de mãe.

2 respostas para “para Silvia (texto de abril de 2009)”

  1. Enchi meus olhos de lágrimas. Primeiro, porque me percebeste de uma forma que eu não havia me percebido. Segundo, porque te percebi de um modo que eu costumava te perceber e me havia meio que esquecido de fazê-lo. Te amo.

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