Música, Memória e Sociedade | RESUMO

Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPel, criado em 2001, tem trabalhado na catalogação e análise de fontes primárias sobre a música nos jornais e revistas da primeira metade do século XX, análise de iconografia musical, música e gênero e história das instituições de ensino musical no Rio Grande do Sul, com o objetivo de refletir sobre a memória e o patrimônio musical da cidade de Pelotas e do Rio Grande do Sul.

Além do enfoque de investigação sobre a história das instituições de ensino musical, o grupo tem refletido sobre as relações entre musicologia e performance, a partir do estudo de programas de concerto, iconografia fotográfica e histórias de vida de intérpretes e professores de música.

Neste livro apresentamos uma coletânea de artigos em uma retrospectiva dos projetos de pesquisa desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPel nos últimos dez anos. Com o objetivo de não sobrepor publicações, já na seleção do material, decidimos publicar somente o que não havia sido anteriormente publicado em meio impresso, em livros, capítulos de livros ou revistas acadêmicas. A escolha recaiu então sobre nossos trabalhos apresentados em congressos e simpósios e que não foram impressos em anais, bem como sobre os trabalhos inéditos. Nesse sentido, publicações eletrônicas foram incluídas, assim como textos publicados em anais de congressos, publicados pelos pesquisadores participantes do grupo de pesquisa, alguns deles em co-autoria com os alunos bolsistas.

História Iconográfica | RESUMO

Release:

A história do Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas, antigo Conservatório da cidade de Pelotas, se confunde com a própria história da música na cidade. Além do ensino da música, esta instituição, a exemplo de outras do mesmo gênero no país, tomou para si a tarefa da promoção e organização de concertos que se realizavam na cidade, tanto dos alunos da escola como de artistas convidados.
Instituição de extrema relevância para a cultura da cidade de Pelotas, o Conservatório de Música da UFPel tem também papel significativo na história do Rio Grande do Sul, papel este que foi reconhecido através da concessão, em 2004, do título de “Patrimônio Cultural do Estado”, através do Projeto de Lei do Deputado Estadual Bernardo de Souza aprovado pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Esta história está conservada pelos documentos que existem no Centro de Documentação Musical do Conservatório de Música, e dentre eles, muito especialmente pelas imagens dos concertos aqui realizados, e dos alunos e professores que passaram por esta casa de ensino.
O projeto História Iconográfica do Conservatório de Música da UFPel pretende resgatar esta história que aí se conserva através da preparação de um livro, onde as imagens sejam apresentadas em destaque, contextualizadas pelas informações históricas necessárias para seu entendimento, concretizando um retorno para a sociedade da trajetória de sua escola de música.
Nas palavras da musicóloga, professora e pesquisadora da UFRGS, Maria Elizabeth Lucas, “é inegável, portanto, a importância de se dar a conhecer o acervo histórico-documental do Conservatório de Música da UFPel em seus múltiplos aspectos e incentivar alternativas de sua utilização não para a constituição de um discurso laudatório e de auto-glorificação, mas sim para dinamizar a construção de várias histórias que nos levem a interpretar os significados dos jogos de inclusões e exclusões sociomusicais que se processaram no âmbito dessa e de outras instituições no Brasil cujos efeitos ainda se fazem sentir na contemporaneidade”.

Concepção e organização do livro: Isabel Nogueira
Patrocínio: Khautz e Laboratório Multilab
Realização: Conservatorio de Música da Universidade Federal de Pelotas
Produção Executiva: ATO Produção Cultural
Diagramação e Direção de Arte: Insight
Financiamento: Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul

SUMÁRIO DO LIVRO HISTÓRIA ICONOGRÁFICA DO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DA UFPEL

APRESENTAÇÃO: Isabel Nogueira (UFPEL)

PREFÁCIO: Mário Osório Magalhães (UFPEL)
1. História e patrimônio de uma instituição musical: um projeto modernista no sul do Brasil?

Autor: Maria Elizabeth Lucas (UFRGS)

2. Entre Pelotas e Cachoeira do Sul.
Autor: Flávio Silva (FUNARTE, Rio de Janeiro)

3. A imagem como testemunho da História:a memória do Conservatório de Música na coleção de fotografias em preto-e-branco (1918–1969)

Autores: Fábio Vergara Cerqueira e Maria Augusta Martiarena de Oliveira (UFPEL)

4. HISTÓRIA DO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DA UFPel
Autor: Isabel Nogueira. (UFPEL)

5. PROFESSORES E ALUNOS – ENSINO E ATIVIDADES ARTÍSTICAS
Autor: Isabel Nogueira (UFPEL)

6. Considerações sobre a trajetória artística musical do Conservatório de Música da UFPel
Autor: Marcelo Cazarré, Márcio de Souza e Patrícia Pereira Porto. (UFPEL)

História Iconográfica, prefácio de Mario Osorio Magalhães

Conservatório. A palavra, em si, já transmite a idéia de preservação, resguardo, patrimônio.

Pensemos em outra: consultório. Com exceção da faxineira, da secretária e do representante de laboratório, quem vai a um consultório com outro objetivo que não seja o de consultar — ou de ser consultado? A um escritório, porém, raramente alguém se dirige hoje em dia com a finalidade específica de escrever.
É. Algumas expressões, às vezes, fogem do seu significado original. Outras vezes, ganham nova representação, inteiramente distinta daquela que tinham na ocasião em que foram criadas. Poucas pessoas (pelo menos é o que espero) utilizam-se atualmente do armário para guardar seu arsenal de armas…
Precisamente por isso são belas, as palavras. Como tudo o que é importante no mundo, elas são mutáveis e difíceis — embora, algumas vezes, só mudem na aparência e só se façam de difíceis. Serão sempre complicadas para mim, que me dedico à tarefa, quase diária, de juntá-las, enfileirá-las, todas as manhãs, na ante-sala aqui de casa (tenho, também, uma biblioteca, mas nunca tive escritório).
Com a autoridade de seu quase um século de existência, é precisamente essa imagem de resguardo artístico que vemos refletir, com mais intensidade, o nosso Conservatório de Música; mas não apenas como estabelecimento destinado a conservar e aperfeiçoar, através do ensino, esta arte entre nós: na condição, mais ampla, de uma das melhores tradições de Pelotas.
* * *
De um modo geral, as entidades escolhem registrar suas datas de aniversário utilizando como referência a primeira ata de fundação. Não foi o caso do Conservatório de Música.
A reunião que formalizou o seu nascimento verificou-se numa noite chuvosa e fria de 4 de junho de 1918, e teve lugar nas dependências da hoje Associação Comercial, então Praça do Comércio, nessa época funcionando em uma sala do suntuoso Clube Comercial. Três semanas depois, no dia 25, e no mesmo local, foram apresentados os estatutos da nova associação.
Convencionaram os seus idealizadores, porém, que o Conservatório teve o seu início em 18 de setembro. Por quê? Porque nessas vésperas de primavera, num terceiro evento, inaugurou-se a entidade em prédio próprio. E me parece que essa data é ainda mais emblemática porque essa reunião, diferentemente das anteriores, não se limitou aos discursos de praxe: dessa vez o ato burocrático, a solenidade formal, encerrou-se calorosamente, artisticamente — com um recital de piano.
O prédio próprio do Conservatório (o mesmo onde hoje está) foi cedido, nesse dia 18 de setembro, pelo governo municipal. Há o registro, num livro específico que conta a história da instituição, de que esse sobrado teria sido construído entre 1880-1881 para servir de residência ao Barão de Correntes, Felisberto Inácio da Cunha. Mas a informação que tenho é de que bem antes, em 1846, quando da primeira visita de dom Pedro II a Pelotas (logo após a Revolução Farroupilha), ficou esse jovem Imperador, de 20 anos de idade, hospedado precisamente nesse palacete, que era propriedade de Domingos de Castro Antiqueira, nosso primeiro barão, conforme decreto assinado em 1829 por dom Pedro I. Logo após a visita do segundo monarca, o anfitrião Antiqueira seria elevado a Visconde de Jaguari. A fonte? O historiador Alberto Cunha, por sinal filho de Felisberto, Barão de Correntes…
Há uma outra indicação: a de que, depois da morte do visconde, o sobrado passou a pertencer a José Inácio da Cunha. Pois José Inácio era pai de Felisberto, que provavelmente haja herdado e, quem sabe, reformado o prédio. Pelo menos parcialmente, parece-me que fica assim esclarecida a questão.
* * *
Os conservatórios de música são típicos exemplos de instituições que existem não só há longos anos como em muitas cidades de diversos estados brasileiros. Essa multiplicidade de reproduções (desde o início do Segundo Reinado) faz com que tais entidades sejam bastante conhecidas da população, digamos, mais civilizada do Brasil.
Justamente, talvez, por isso — porque a referência é quase corriqueira —, o tratamento que têm recebido dos historiadores é, na maioria das vezes, tangencial, paralelo. Como se cada unidade que se houvesse fundado, no espaço, fosse uma cópia, ou imitação, daquelas que lhe antecederam no tempo. Bastaria, então, conhecer a trajetória de algumas, mais antigas, para chegar à conclusão de que praticamente se percorreu o caminho, desvendou-se o passado de todas as outras, mais recentes…
É evidente que o Conservatório de Música de Pelotas, ao ser criado em 1918, seguiu o modelo dos seus congêneres nacionais. Mas não se pode negar que ocorreria aqui uma tradução específica e uma seleção particular, fazendo desta instituição, localizada no extremo meridional do País, um exemplo novo e, para dizer o mínimo, interessante. Por quê? Porque já se desenvolvera em Pelotas, no ano da fundação do Conservatório, um gosto muito especial pela música — em outras palavras, uma identidade musical própria.
Creio que, como indicativo disso, bastaria o exemplo de um único testemunho: em 1827, o alemão Carl Seidler observava em seu livro Dez anos no Brasil que, na freguesia de São Francisco de Paula (nome primitivo de Pelotas, que, portanto, nem vila era ainda), “o piano se encontra em todas as boas casas” e “as mulheres quase todas tocam”. Veja bem o leitor: isto foi escrito quase um século antes; sem nenhuma dúvida, trata-se de uma realidade e de um comportamento que, de alguma forma, teriam que influir, necessariamente, sobre os destinos e os rumos do Conservatório, cerca de cem anos mais tarde…
A professora Isabel Nogueira, coordenadora deste belo livro de imagens, História Iconográfica do Conservatório de Música de Pelotas, publicou há poucos anos uma outra obra, essa sobre a história do piano em Pelotas e, obviamente, no Conservatório de Música. Em correspondência que me dirigiu, a fim de repassar-me subsídios para que eu pudesse, como agora, compor seu prefácio, confessou-me que havia chegado à seguinte conclusão: “percebi que o repertório tocado pelos alunos da Escola era surpreendentemente mais contemporâneo do que aquele tocado pelos pianistas de fora da cidade”.
E não é de pequena monta verificarmos que um desses pianistas forasteiros foi ninguém mais ninguém menos do que Antônio Leal de Sá Pereira, que passara 17 anos estudando na Europa, voltara ao Brasil para ser diretor do Conservatório de Música de Pelotas e depois, fixando-se no centro do País, foi ser professor de Camargo Guarnieri e confidente de Mário de Andrade…
E isso justifica novas conclusões: o Conservatório de Música de Pelotas, na verdade, transmite a impressão — que se reflete vigorosamente nas fotografias deste livro — de preservação, resguardo, patrimônio. Mas também, e inegavelmente, de restauração, de atualidade, de inovação, de renovação, de vanguarda.
Passa a certeza de ser uma entidade que ficou para sempre, mas que seguiu, desde sempre, em direção à frente.
Mario Osorio Magalhães

Pelotas, inverno de 2005.

O Pianismo na cidade de Pelotas 1918-1968, prefácio de Mario Osorio Magalhães

As Misericórdias e os Conservatórios de Música são típicos exemplos de instituições que existem não só há longos anos como em muitas cidades de diversos Estados brasileiros. Essa multiplicidade de reproduções (desde o período colonial e o início do Segundo Reinado, respectivamente) faz com que tais entidades sejam bastante conhecidas da população, digamos, mais civilizada do Brasil.

Justamente, talvez, por isso —porque a referência é quase corriqueira—, o tratamento que têm recebido dos historiadores é, na maioria das vezes, tangencial, paralelo. Como se cada unidade que se houvesse fundado, no espaço, fosse uma cópia, ou imitação, daquelas que lhe antecederam, no tempo. Bastaria, então, conhecer a trajetória de algumas, mais antigas, para chegar à conclusão de que praticamente se percorreu o caminho, desvendou-se o passado de todas as outras, mais recentes…
Isabel Nogueira, neste livro, ajuda a provar que não é nada disso. Mostra que o Conservatório de Música de Pelotas, ao ser criado em 1918, seguiu o modelo dos seus congêneres nacionais, mas destaca sobretudo que ocorreria aqui uma tradução específica e uma seleção particular, fazendo desta instituição oficial, localizada no extremo meridional do País, um exemplo novo e, para dizer o mínimo, interessante.
Por quê? Porque já se desenvolvera em Pelotas, no ano da fundação do Conservatório, um gosto específico pela música —em outras palavras, uma identidade musical própria.
Farei só uma citação, para não repetir os argumentos que a autora utiliza, com tanto brilho e ótimo estilo, nas páginas que se seguem: em 1827, o alemão Carl Seidler observava em seu livro Dez anos no Brasil que, na freguesia de São Francisco de Paula (nome primitivo de Pelotas), “o piano se encontra em todas as boas casas” e “as mulheres quase todas tocam”. Veja bem o leitor: isto foi escrito quase um século antes; sem nenhuma dúvida, trata-se de uma realidade e de um comportamento que, de alguma forma, teriam de influir, necessariamente, sobre os destinos e os rumos do Conservatório, cerca de cem anos mais tarde…
Agora, confesso: o que mais me surpreendeu neste livro foi a circunstância de que Isabel Nogueira não se limitou a recuperar os antecedentes, a fundação e os primeiros 50 anos de história dessa atual unidade da UFPel registrando apenas os seus episódios mais relevantes. Chegou a minúcias, tais como analisar todo o repertório executado, ao longo do tempo, por seus professores e alunos, dentro dos mais diversos cenários que a sensibilidade dos pelotenses, até 1968, chegou a construir, com a saudável intenção de se deliciar auditivamente e se expressar em sons, através de instrumentos (de modo mais específico, neste caso, o piano) e notas musicais.
Creio que, por isso, tem toda a autoridade a afirmação que me fez a autora, numa correspondência que trocamos, recentemente, quando lhe solicitei subsídios de natureza pessoal para escrever este texto. Disse-me assim: “percebi que o repertório tocado pelos alunos da Escola era surpreendentemente mais contemporâneo do que aquele tocado pelos pianistas de fora da cidade”. E não é de pequena monta verificarmos que um desses pianistas foi nada mais nada menos do que Antônio Sá Pereira, que passara 17 anos estudando na Europa, que voltara ao Brasil para ser diretor do Conservatório de Música de Pelotas e que, depois, fixando-se no centro do País, foi ser professor de Camargo Guarnieri e amigo de Mário de Andrade…
Isabel Nogueira começou a estudar piano aos 8 anos de idade, e a freqüentar o Conservatório desde os 12; foi para a Espanha, cursar Doutorado, na Universidade Autônoma de Madri, dez anos depois; para compor sua tese, na volta, escolheu a história dessa Casa, da qual agora é Diretora. Melhor do que ela, ninguém, para nos conduzir através dos seus corredores, das suas salas, do seu auditório. Ninguém melhor do que ela para recolher, das suas paredes, os ecos de um passado glorioso e vibrante —que agora está definitivamente depositado e ressoará, outra vez, sempre que folhearmos as páginas deste belo livro que ela hoje publica.

Mario Osorio Magalhães

Pelotas, outubro de 2003.

O Pianismo na cidade de Pelotas 1918-1968| CONTRACAPA

O presente trabalho procura realizar um diagnóstico histórico-analítico sobre a escola pianística desenvolvida no Conservatório de Música da cidade de Pelotas, desde sua fundação em 1918, até 1968, quando se torna unidade agregada da recém criada Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Através de um estudo sobre os alunos da escola, uma análise detalhada do repertório executado em concertos públicos e sua repercussão na sociedade da época; buscaremos construir nossas conclusões sobre o papel estético e social do piano no Conservatório de Música da cidade de Pelotas.

Este trabalho foi apresentado como Tese de Doutorado ao Programa de Doutorado em História e Ciências da Música da Universidade Autônoma de Madri, Espanha, em 07 de março de 2001. A pesquisa contou com a orientação da Profa. Dra. Rose Marie Reis Garcia (UFRGS/Brasil) e Prof. Dr. Ubaldo Martinez Veiga (UAM/Espanha). A Tese recebeu a qualificação “Sobresaliente cum laude” e indicação para publicação, e foi avaliada por um tribunal de tese composto pelos doutores: Prof. Dr. José Peris Lacasa, Prof. Dr. Pío Tur Mayans, Prof. Dr. Antonio Martin Gonzalez, Prof. Dr. Alfredo Vicent, Profª. Drª. Maria Cateura y Mateo.

CRÉDITO DA CAPA

Assim eram carregados os pianos pelas ruas do Rio de Janeiro,
conforme desenho de F. Biard no seu livro “Deux Anées au Brésil” (Paris, 1862)